Para alguns de nós, aqui do Práticas Escolares e Políticas Públicas” (PEPP), que ultimamente transitaram por entre textos como Império de Michael Hardt e Antonio Negri, Os Sentidos do Trabalho de Ricardo Antunes, O que é o virtual de Pierre Lévy (este nas segundas às 18h30, quinzenalmente - sintam-se convidados) que procuraram visualizar uma série de “complexos movimentos” que se operam nos dias globais do mundo em que vivemos, por entre linguagens, cultura, educação, política e sociedade, para poderem retornar à escola e lá pensar o que e como fazer, vai aí essa entrevista com Robert Kurz, que toca em pontos decisivos.
Nascido em 1943, Kurz estudou Filosofia, História e Pedagogia. Atualmente, vive em Nurenberg como publicista autônomo, autor e jornalista. Foi co-fundador e redator da revista teórica Krisis - Beiträge zur Kritik der Warengesellschaft (Krisis - Contribuições para a Crítica da Sociedade da Mercadoria). A área dos seus trabalhos abrange a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a crítica ao Iluminismo e a relação entre cultura e economia. Publica regularmente ensaios em jornais e revistas na Alemanha, Áustria, Suíça e Brasil. O seu livro O Colapso da Modernização (São Paulo: Paz e Terra, 1991), também editado no Brasil tal como O Retorno de Potemkin (São Paulo: Paz e Terra, 1994) e Os Últimos Combates (Petrópolis: Vozes, 1998), provocou grande discussão, e não apenas na Alemanha. Publicou Schwarzbuch Kapitalismus (O Livro Negro do Capitalismo) em 1999, Weltordnungskrieg (A Guerra de Ordenamento Mundial) e Die Antideutsche Ideologie (A Ideologia Antialemã) em 2003, não-editados em português. IHU On-Line entrevistou Robert Kurz na 98ª edição, de 26 de abril de 2004, quando tratou da crise da sociedade do trabalho. Robert Kurz disponibilizou a referida entrevista, em alemão, no sítio www.exit-online.org. Publicamos um artigo de Robert Kurz na 117ª edição, de 27 de setembro de 2004.
IHU On-Line – Como as novas tecnologias a serviço de obras coletivas, o copyleft e a vida online podem contribuir para construir a utopia na forma em que o senhor a entende?
Robert Kurz – Neste tema, receio haver grandes mal-entendidos. Em primeiro lugar, não se trata de uma “utopia”. As utopias são sempre modelos abstratos que devem ser concretizados, mas uma convulsão social é algo bem diferente. O ponto de partida não é um modelo positivo, porém a “força da negação”. Da análise das contradições reais e da crítica com isso relacionada pode se formar um movimento social que ingressa num processo prático de convulsão [Umwälzung]. A teoria crítica pode desenvolver critérios para isso. O resultado, porém, não está garantido a priori como modelo, e por isso um pensamento realmente transcendente não pode ser utópico. O mundo capitalista que nós criticamos não é, ele próprio, resultado da concretização de um modelo, mas o resultado de um processo histórico de complexas intermediações. Para poder sair deste mundo, é necessária uma “contramediação” igualmente complexa, um processo histórico de transformação. Aí fracassa um pensamento por modelos positivos. Em segundo lugar, novas relações sociais não podem ser criadas por novas tecnologias (todos os grifos são meus). As novas tecnologias da microeletrônica conduzem de modo imanente aos limites do capitalismo, porque tornam o trabalho amplamente supérfluo, impossibilitando, com isso, a ulterior expansão da mais-valia. São tecnologias da crise. Entretanto, com isso, não se conecta nenhum automatismo tecnológico como postulado de uma outra sociedade, apenas a crise da sociedade vigente. A emancipação social não pode orientar-se em tecnologias, pois isso seria continuar a coisificação capitalista. Trata-se precisamente de libertar as relações sociais da submissão às coisas mortas e torná-las soberanas em face das tecnologias.
IHU On-Line – Como se relaciona o “trabalho abstrato” na visão de Marx com o trabalho imaterial da atualidade?
Robert Kurz – O “trabalho abstrato” não é imaterial em Marx. O conceito designa antes a indiferença em face do conteúdo, porque ele se dirige unicamente ao próprio fim irracional do emprego de capital, pela reversão de um “sujeito automático” (Marx) sobre si mesmo. Por isso, o trabalho é um fim em si mesmo, que consiste precisamente no “desgaste dos nervos, músculos, cérebro” (Marx). Esta abstração é, pois, real, totalmente material. A redução social do processo de produção à consumação abstrata de energia humana por ela mesma, não leva em consideração o conteúdo nem as necessidades. Apenas por esta redução sobre a materialidade de energia humana abstrata é que realmente pode o “trabalho abstrato” ser a “substância do capital” (Marx). A terceira revolução industrial da microeletrônica não torna imaterial o “trabalho abstrato”, mas precisamente supérfluo. Os mais avançados setores da tecnologia informacional, mídia, analítica simbólica etc. não podem mobilizar novas massas de “trabalho abstrato”. O resultado é não só a crise do emprego de capital, mas também a crise do positivo conceito marxista de trabalho. A tradicional “ontologia do trabalho” marxista deve ser criticada radicalmente. Antonio Negri e Michael Hardt somente criaram o não-conceito do “trabalho imaterial” para contornar esta crítica necessária e salvar a velha “ontologia do trabalho”. Também na ideologia do software livre este novo conceito do “trabalho imaterial” é determinado como pretensa nova base da velha ontologia, em vez de criticar a própria abstração real “trabalho” como forma capitalista de reprodução.
IHU On-Line – As novas tecnologias exigem trabalho coletivo compartilhado, o general intellect em Marx, mas, no sistema capitalista privado e individualista, parece ser muito difícil dar conta dele. Existe uma contradição entre o sistema no qual vivemos e a necessidade da socialização exigida pelas novas tecnologias? Como se pode solucionar esta contradição?
Robert Kurz – O conceito de general intellect em Marx não se relaciona com uma forma imediata de organização, mas com uma modificação da relação universal de ciência e produção: os homens avançam progressivamente ao lado e antes do processo de produção. Esta é precisamente a crise do “trabalho abstrato” e, com isso, da forma do valor e do dinheiro. Marx quer superar o indivíduo abstrato do capitalismo, que só se relaciona com outros indivíduos pela abstração do dinheiro. Para Marx, porém, não se trata da negação, ao contrário, da libertação da individualidade dessa forma abstrata. Marx não substitui o individualismo abstrato por um coletivismo também abstrato. “Socialização” significa um “indivíduo socialmente livre”, e não um “apático coletivo co-agente”. Um coletivismo mediado apenas tecnologicamente sempre é co-agente. Historicamente, o coletivismo não foi a superação da individualidade capitalista abstrata, mas o modo de sua imposição nas ditaduras da “modernização retroativa” na periferia do mercado mundial. Um coletivismo eletrônico amplamente anônimo é uma representação terrível, o oposto de uma emancipação social e uma simples prorrogação do “trabalho abstrato”. Não é por nada que os internet-freaks (extravagantes, malucos, excêntricos), que promovem tais representações, são, em geral, homens mais jovens, pois a gênese histórica do “trabalho abstrato” teve uma conotação estruturalmente masculina, vinculada com o surgimento do patriarcado moderno. Além disso, esta representação de uma produção imediatamente coletiva, aparentemente exigida pelas novas tecnologias, vive pelo fato de que o caráter específico do software é absolutizado bem unilateralmente e tomado como modelo para todos os outros objetos. Isso é impossível, não se podem criar objetos das necessidades materiais ou produtos culturais (por exemplo, textos teóricos ou literários) segundo o esquema da modelagem por software.
IHU On-Line – As obras construídas coletivamente, como, por exemplo, a Wikipédia, abrem mão dos direitos autorais. Que sentido e que força o capitalismo atribui a esses direitos autorais nos diferentes campos do saber e da produção? Em que sentido eles são uma forma de poder?
Robert Kurz – A forma universal do direito na modernidade é a forma jurídica da propriedade privada, mas esta forma é apenas a expressão jurídica das relações capitalistas de produção, que repousam sobre o “trabalho abstrato”. A ilusão do marxismo tradicional consistia em que ele queria suspender apenas exteriormente a forma jurídica da propriedade privada, enquanto ontologizava a base do “trabalho abstrato”. Isso significa “amansar o cavalo pelo rabo”. Somente com a superação do próprio “trabalho abstrato” sua forma jurídica perde sua base. O procedimento inverso, no entanto, só pode conduzir a um aparelho burocrático abstrato do não-superado “trabalho abstrato”. A ideologia de um software livre contorna o problema, porque ela está restrita à Internet e absolutamente não possui um conceito crítico da reprodução social global. Contudo, também no caso da Wikipédia absolutamente não é possível que cada um insira “livremente” suas obras. Há um código e um controle não transparente do acesso. Um outro problema é o status dos produtores individuais. Eles precisam vender seus produtos a empresas como Microsoft ou Bertelsmann para poderem viver. Esta dependência, no entanto, só pode ser superada por uma reviravolta das relações sociais de produção, e não por uma “renúncia a direitos autorais” isolada e exterior. A ideologia do software livre, que entrementes vem sendo ampliada a textos teóricos e literários, direciona-se menos contra as empresas, porém, primeiramente, contra os próprios produtores. Quem abre mão de seus “direitos autorais”, deve ser mero amador e obter dinheiro de outras fontes, porque, caso contrário, não pode viver no capitalismo. É desleal ofuscar este fato.
IHU On-Line – Que tipo de compreensão de sociedade e de trabalho existe por trás de um trabalho coletivo “sem direitos de autor”, que pode ser apropriada e modificada ao bel-prazer, enquanto ocorre sem a intermediação de dinheiro?
Robert Kurz – Trata-se de um utopismo neopequeno-burguês, que se restringe à esfera da circulação. O que aqui é designado como “produção”, não é mais do que um prolongamento da circulação e do consumo. A Internet é essencialmente um meio de circulação. Por isso, esse utopismo também vai superar o dinheiro de modo meramente circulante, como um “dar e receber” sem custos e sem controle, enquanto o “trabalho” é retido como ilusão, ao invés de criticá-lo. O propagado caráter “imaterial” se refere aí a uma posse meramente combinatória de módulos pré-fabricados. Já que as condições sociais do capitalismo continuam sendo pressupostas, só podem ser sujeitos de concorrência que exercem o pretenso “livre apossar-se”. A “disposição abstrata” de textos e de outros produtos, separada do conteúdo da “apropriação”, é apenas o prolongamento do formalismo juridicamente vazio, mas sem “direitos autorais” individuais. Os produtores intelectuais são transformados em caça livre; cada “galo” concorrente pode copiar sem receio e apresentar os produtos como seus. A crise do “trabalho abstrato” também é uma crise da identidade masculina; por isso esta ideologia não se dirige por último contra as autoras, que devem ser intelectualmente despojadas por homens precarizados. Isso não é emancipação, e sim falta de vergonha. Ao mesmo tempo, é uma pretensão formalizada de poder. A força repressiva das empresas só é substituída pelo poder igualmente repressivo de um coletivo co-agente de sujeitos concorrentes desoprimidos. Não existe uma modificação emancipadora por um princípio universal formal e abstrato. Outra coisa seria uma livre associação de indivíduos, que se uniriam numa associação, na qual determinadas regras capitalistas deveriam ser eliminadas (por exemplo, o livre aproveitamento de recursos de uma biblioteca administrada coletivamente). Tais elementos de uma concreta contracultura não têm, no entanto, nada a ver com um formalismo abstrato como o princípio do copyleft.
IHU On-Line – Em que sentido as novas tecnologias podem contribuir para que o trabalho seja inclusivo, e não continue crescendo o desemprego?
Robert Kurz – “Trabalho”, como um conceito abstrato, sem conteúdo, em si mesmo não tem sentido, é um fim capitalista autônomo. Trabalho significativo seria uma contradição em si mesmo. As novas tecnologias não dão nenhum sentido a este “trabalho abstrato”, porém o tornam supérfluo. Somente na forma capitalista isso aparece como “desemprego”. Além do trabalho como fim em si mesmo também já não há mais “desemprego”.
IHU On-Line – Como surgem os atuais workaholics? Que conseqüências têm tal forma de vida?
Robert Kurz – Workaholics são pessoas que levam ao extremo sua sujeição ao fim em si mesmo do “trabalho abstrato”. Podem ser administradores, bem como assalariados ou “empreendedores autônomos”. Eles se transformam em “máquinas funcionais” humanas, que se entregam até o esgotamento a um fim alienado. Com isso, é compensada a falta da vivência pessoal e a atrofia das relações sociais. É a total auto-entrega ao “sujeito automático” do emprego de capital. Na new economy esta síndrome foi elevada a modelo. Atualmente, a new economy sofreu um lastimável naufrágio, mas este modelo destrutivo é entrementes estendido a todos os setores. Isso tem algo a ver com o fato de que a relação do capital, na crise da aplicação, retorna da prioridade do “mais-valor relativo” à prioridade do “mais-valor absoluto”, ao prolongamento do tempo de trabalho e à intensificação do trabalho. Quanto menos a força de trabalho humana ainda pode ser empregada de maneira rentável, tanto mais este resto deve ser espoliado, até a auto-espoliação do trabalho formalmente “autônomo”. Socialmente, surge uma atmosfera da pressa febril sem perspectiva e da falta de consideração consigo mesmo e com os outros. São sinais típicos de um colapso. Esta síndrome de workaholics não deveria, no entanto, ser confundida com o esforço por fins autodeterminados, por exemplo, na produção literária ou teórica no sentido de uma crítica social. Penetrar criticamente num objeto, é sempre um assunto intensivo. Opostamente à auto-entrega sem conteúdo ao “sujeito automático”, também pode haver uma erótica do conteúdo, que conduz a uma espécie bem diferente de ocupação intensiva. Numa sociedade liberta poderia ser normal que períodos de esforço mais intenso por objetos pessoalmente escolhidos se alternem com períodos de ócio prazeroso. Uma “preguiça abstrata” seria apenas a imagem especular do “trabalho abstrato”.
IHU On-Line – No Brasil, pode-se observar agora uma profunda decepção política. As promessas de um governo de esquerda foram tão pouco satisfeitas como as dos governos anteriores, seja com respeito ao mundo do trabalho, seja em relação à corrupção política ou aos problemas econômicos. Como vê esta situação?
Robert Kurz – No futuro, somente haverá decepções políticas, porque a esfera política do capitalismo na globalização e na crise da terceira revolução industrial é incapaz de regular a sociedade. Estado e política formam apenas o outro lado do emprego de capital e do mercado. O fracasso do mercado é também o fracasso da política. Não é um fracasso das pessoas, porém uma barreira interior da relação social. Por isso, não adianta substituir as pessoas ou fundar novos partidos políticos. O que atualmente é vivenciado no Brasil é uma experiência universal em todo o mundo, também na Europa. Além disso, a política é estruturalmente tão “masculinamente” determinada como o “trabalho abstrato”. Um movimento social emancipador deve direcionar-se tanto contra a política como contra o “trabalho abstrato”. O marxismo tradicional não esteve envolvido apenas numa ontologia do “trabalho, mas também numa ontologia da política e do patriarcado moderno. Para escapar desta prisão, o movimento social deve constituir-se de maneira autônoma. A resistência contra as exigências da administração da crise não pode mais apoiar-se nas instituições patriarcais da modernidade. Um movimento social autoconsciente contra o “trabalho abstrato” e contra a moderna relação sexual talvez faça, no processo da crise, alianças parciais com forças políticas, mas ele não mais se deixará estrangular pelas coações estruturais do sistema político.
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